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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Concurso Literário da Uniso




Textos que receberam menção honrosa e que foram selecionados para a Antologia do 31o. Concurso Literário da Uniso (Universidade de Sorocaba/SP) – categoria: microconto (número máximo de sessenta palavras). Autoria: Moacir Poconé.
DESCANSO
Pensava muito em sua mãe. Chegava, ele mesmo, a achar estranho. Se não a visitava, perdia o dia. Mal falava com as pessoas. Até que resolveu pôr fim àquela situação: precisava viver. Munido de flores, dirigiu-se ao cemitério. Seria aquela sua última homenagem. Ele mesmo precisava descansar em paz.

HEREDITARIEDADE
Camarões, arroz à grega, filé grelhado. Saladas em fartura. Via aquilo tudo a sua frente. Perto, mas tão longe. Na calçada, segurava um pedaço de pão velho. Estendia a mão.  Parecia invisível. Ninguém a via. Entravam calados, saíam sorrindo, com suas barrigas cheias. E ela ali. A barriga cheia com outro ser. Seria faminto, como ela.

O 31.º Concurso Literário da Universidade de Sorocaba, realizado de 25 de junho a 04 de outubro de 2012, aceitou inscrições em duas modalidades: microconto e videominuto, ambos com o tema “narrativas urbanas”. Esta edição do concurso recebeu 328 obras, de autores residentes em diversos Estados brasileiros e também no exterior. Na categoria de microcontos, além dos finalistas, cinquenta e cinco trabalhos receberam menção honrosa da Comissão Julgadora e ficaram expostos no câmpus. Todos os textos selecionados compõem esta antologia, editada no formato de livro eletrônico.

sábado, 22 de setembro de 2012

Em Família



 EM FAMÍLIA
Moacir Poconé

Era ainda cedo quando ele chegou. Estranhamente, ninguém o esperava. Bom dia, doutor. Como está doutor. Eram as frases que mais ouvia ao chegar. Exigia ser chamado assim: doutor. Mesmo que fora o chamassem pelo apelido de infância. Procurou ver um bom sinal nisso. Estavam todos satisfeitos, achou. Mas sentiu falta das bajulações. Tudo parecia muito estranho. Não estava acostumado a esse tipo de comportamento. Era comum, afinal, ouvir aquilo mesmo não sendo verdade. Mas gostava. Mesmo que fosse de mero formalismo. Onde estariam todos? Deixa pra lá, pensou, querendo retomar o pensamento para o que importava. Em sua sala, o trabalho o esperava. Contratos de milhões de reais sobre a mesa, alguns negócios legais, outros escusos. Propinas a pagar. Mas ele não esquecia a falta de afagos. Além do mais, eram sangue de seu sangue. Primos, sobrinhos, tios até a mãe. O pai já não estava entre ele, no sentido eufemístico da palavra. Senão, lá estaria, com toda certeza. Mais do que na prefeitura, sentia-se em casa, no seio do seu lar. Literalmente. Pouco importavam os processos. Aquele promotorzinho recém-chegado já estava com os seus dias contados. O governador era parente seu também, mesmo que distante. Iria dar um jeito naquele intruso que mais parecia um filho sem mãe. Afinal, como implicar com o fato de que ele fizera da prefeitura um cabedal de empregos. Que mal há nisso? Farinha pouca, meu pirão primeiro. Era o mote que sempre repetia, fazendo tornar uma verdade absoluta. Mas, e agora? Queria um cafezinho e sequer havia uma auxiliar a lhe servir. Bem que pensara duas vezes antes de empregar aquela sobrinha do irmão de seu cunhado. Agora que precisava dela, a danada desaparecera. Gente mais preguiçosa! Algumas ligações, várias assinaturas que sequer sabia do que se tratava. E ninguém aparecia. Que diabos! Levantou-se impaciente. Aquilo já estava passando dos limites. Foi à sala da secretária, enfezado, reclamar daquilo que já achava um insulto. Ao abrir a porta, ouviu, numa só voz: feliz aniversário! E lá estavam todos os secretários, auxiliares, cargos em comissão, numa sala que ficou apertada de tanta gente. Festa surpresa. Festa de família. Naquele dia ninguém trabalhou. A família inteira, na sala do prefeito, fez a cidade parar. A administração da cidade era da família e a família era a administração. Nada mais bonito que uma família unida. Em casa e no trabalho, como se ambos fossem a mesma coisa. E eram mesmo.

* Crônica selecionada em 2o. lugar no Concurso de Crônicas Laura Ferreira do Nascimento (SP). Resultado divulgado em 22/09/2012.