sábado, 5 de março de 2016

JK e Lula




Era o período da Ditadura Militar. Em 1964, o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento, sob a forte pressão daqueles que reprimiram o povo brasileiro por 25 anos.  Período de exceção, a legislação vigente ficava em segundo ou terceiro plano. A força era o que valia e, certamente, o medo de um líder popular como JK retornar ao maior posto da República se tornava o principal ou único motivo.

Eis que a pouco menos de um mês de completar 52 anos, vemos a força sobrepujando os conceitos democráticos e de garantias ao cidadão que pareciam sedimentados pela Constituição de 1988 e toda Legislação vigente. Num espetáculo que visou muito mais à humilhação do que a qualquer critério jurídico, novamente um ex-presidente, líder popular e com pretensões a retornar ao cargo é conduzido coercitivamente para prestar depoimento, tal qual ocorrera quando da instalação do período ditatorial.

Ressalte-se que não estavam presentes as condições que normalmente antecedem a adoção dessa medida de força. De certa forma comum em nosso país, a condução coercitiva é  adotada quando aquele que é intimado a comparecer perante a autoridade judiciária não se apresenta, parecendo obstruir os trabalhos da Justiça. É fato notório que não é o caso. O ex-presidente Lula sempre que convocado, compareceu e prestou os devidos esclarecimentos. Por isso toda a estranheza que tomou conta da comunidade jurídica, fazendo até ministros do STF e ex-ministros da Justiça se mostrarem perplexos com a adoção de tal medida. 

Óbvio que o ex-presidente não deve ter um tratamento diferenciado e ser tratado como um cidadão comum. Mas isso para o bem e para o mal. Se não deve ter regalias, também não deve ser tratado como um inimigo de todo o sistema. Pelo contrário. Se não é um cargo público, a imagem de ex-presidente deve sim ser preservada e respeitada. E não servir como símbolo da arrogância e prepotência de alguns que querem utilizar os instrumentos legais para direcionar o futuro político de nosso país, já mirando as eleições presidências de 2018.

Pois parece que o tiro saiu pela culatra. O que antes adormecia, acordou, diante da arbitrariedade cometida. E se antes uma candidatura se mostrava apenas possível, agora está mais forte do que nunca, com as manifestações de apoio popular por todos os cantos do Brasil. O primeiro ex-presidente levado à força num período democrático poderá tentar o seu retorno. Isso se não cometerem outros atos de agressão aos seus direitos como os que ocorreram nesse dia 04 de março.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O gestor





As palavras possuem uma forte carga ideológica. A utilização de certos termos serve para engrandecer pessoas, dando-lhes destaque nas áreas em que atuam.

Grande exemplo é o título de "Rei". Inspirados em nosso passado monárquico, costumamos nomear figuras relevantes em suas áreas com esse título de nobreza. Daí termos o "Rei doFutebol", o "Rei da Música", ou a "Rainha dos Baixinhos". Muito comum também, chamarmos crianças de "príncipe" ou "princesa", numa referência aos filhos dos reis, indicando beleza.

Esses termos não ficam restritos apenas no campo cultural. É muito comum o uso para indicarpoder. No início do século XX, o coronelismo era comum no Nordeste brasileiro (há quem diga que existe até hoje). E daí surgiram os temidos coronéis. O que antes representava força, perdeu esse sentido e tal expressão é usada nos dias de hoje como representação para um político opressor e antiquado. "Fulano é um coronel", dizem aqueles ao se referirem a quem comanda algo com mão de ferro e que não acompanhou o progresso.

Curiosamente, outro "título" se tornou marca registrada, especialmente nas prefeituras e governos de Estado. Gestor. É só sintonizar programas matutinos que tratam de política que ouviremos tal palavra dezenas de vezes. Interessante é perceber o seu real significado e sua origem. A palavra "gestor" vem de gesto, gesticulação. Os primeiros gestores eram aqueles que, cerca de duzentos anos atrás, apontavam com o dedo indicador onde um carregamento de alimentos deveria ser colocado. Ou ainda apontavam quem deveria realizar tarefas. Com o tempo, tal significado teve seu sentido modificado, para indicar aquele que gerencia, que comanda.

Vale observar a carga que "gestor" traz de eficiência. Num exemplo, "Antônio não era apenas um prefeito. Era o verdadeiro gestor daquela cidade". Ou seja, chamar um político de gestor transformou-se por si só num elogio. Mas o próprio desgaste do tempo e o uso prático fizeram surgir os adjetivos. Agora já se diz "bom gestor" e "mau gestor". Prefeito ou governador perderam espaço.

Para a população, pouco importa o nome que tenha aquele que é responsável pela administração de sua cidade ou do seu Estado. Independente de se chamar de coronel, prefeito, governador ou gestor, o que precisamos é de bons administradores públicos, que não se escondam por trás de uma palavra que lhes confira status. Em vez da aparência, precisamos de eficiência na condução da coisa pública.

Com pesquisa em http://blog.kanitz.com.br/significado-palavra-gestao/

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Justa mudança


O governo de Jackson Barreto vem sendo alvo de muitas críticas. Muitas delas, merecidas. Entretanto, o governador tomou uma medida que há muito se esperava de um mandatário sergipano: retirou o nome de ditadores brasileiros de algumas escolas e praça de esportes do nosso Estado, numa recomendação da Comissão Nacional da Verdade.

Ao se homenagear um vulto histórico, espera-se que dele surjam referências dignas de um ser humano. Ainda mais numa escola, em que a formação do jovem está acontecendo. Esse certamente era o caso mais alarmante da contradição que era ter como nome da instituição o de um general ditador do regime militar. Era o que acontecia nos colégios Pres. Médici, Costa e Silva e Castelo Branco. Mudaram-se os nomes, respectivamente, para presidente Nelson Mandela, símbolo da luta contra a segregação racial, prof. Paulo Freire, reputado como um dos maiores educadores do Brasil e prof. João Costa, emérito educador sergipano. Também houve mudança no nome do Estádio de Itabaiana, chamado presidente Médici. Agora, será chamado de Etelvino Mendonça, desportista daquela cidade.

Mais que uma mera mudança nos nomes, a alteração significa uma correção, para que um momento lamentável de nossa História seja visto como degradante que foi e não algo a ser exaltado. Momento histórico que, infelizmente, é trazido por alguns como benéfico, chegando a ser pedido o seu retorno em atos públicos ou na própria internet. Será muito importante agora explicar o porquê das mudanças, destacando-se os atos opressores dos detentores dos nomes retirados e os atos humanísticos dos detentores dos nomes que agora chegam.

O único senão de todo esse processo se deve ao fato de a própria população envolvida não ter sido ouvida no debate em alguns casos. O próprio governador reconheceu esse erro no momento em que assinou o decreto que promoveu a alteração. Realmente. Seria perfeito ter dado a palavra às pessoas, numa celebração da liberdade de expressão justamente contra líderes autoritários. Mas já se trata, sem dúvida, de um grande avanço em prol da memória daqueles que lutaram em defesa de um mundo melhor.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Pausa na Zumbilândia



De repente, não mais que de repente, as pessoas desviaram o olhar fixo da tela que há muito as hipnotizava e passaram a ver a seu redor. Tudo era muito estranho, aquelas pessoas, aqueles lugares e uma ação que parecia esquecida precisou ser feita novamente: conversar olhando nos olhos do outro. E foi tudo uma grande novidade.

Pais e filhos se conhecendo dentro de suas próprias casas. Marido e mulher voltando a trocar carícias como nos tempos de namoro. Namorados aprendendo a namorar fisicamente. Amigos se reencontrando para um jantar. Alunos voltando o olhar ao professor. Motoristas com mais atenção no trânsito. Hospitais com menos atendimentos a fazer causados por acidentes. Cinemas novamente escuros sem centenas de luzes individuais acesas. Público de shows e peças teatrais atentos ao espetáculo. Uma overdose, enfim, de atenção percorreu por todo aquele lugar, causando inicialmente um rebuliço medonho para, em seguida, trazer a calmaria própria do ser humano, sem a pressa que a tecnologia e seus mecanismos instantâneos produzem. Um momento, enfim, de descobertas e de desafios.

Claro que nem tudo foi perfeito. Pessoas entraram em depressão, quase que ao mesmo tempo em que ocorreu a mudança. Os dedos, ávidos por teclar, faziam movimentos involuntários, tal qual a personagem Carlitos no filme Tempos Modernos. Uma síndrome de abstinência se abateu sobre milhares de pessoas, fazendo surgir os zumbis dos zumbis. Não sabiam o que fazer da vida sem aquele aplicativo de símbolo verde que praticamente os guiava, desde o acordar até o adormecer, ininterruptamente. Um vício semelhante ao causado pelo uso de entorpecentes. O sofrimento foi grande, mas teve um fim.


Ao fim de dois míseros dias (que para muitos foi uma eternidade), tudo voltou ao seu normal. A hipnose coletiva se fez novamente e toda a desatenção tornou a se instalar na sociedade daquele lugar. Pessoas com seus aparelhos nas mãos e olhares vidrados nas telas. E o que havia de humano, seria apenas uma vaga lembrança na Zumbilândia. Até o dia em que, sem outra saída, foram proibidos os próprios celulares. Mas aí já é outra história.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Mar de lama


Se as pessoas, de modo geral, evitam a política por achar o assunto chato e já terem o conceito previamente definido de que "todo político é ladrão", nessa última semana ganharam ainda mais argumentos que comprovam esses dois pensamentos.

Foi uma verdadeira avalanche de acontecimentos que transformou a classe política brasileira num lamaçal semelhante ao que chocou o Brasil e o Mundo com o rompimento da barragem de Mariana, no Estado de Minas Gerais. Um mar de lama que deixou a todos atônitos, tamanha a sua força e os efeitos que produz. Isso em diversos níveis, notadamente Estadual e Federal. Ninguém parece estar ileso dos efeitos dessa correnteza, que vai levando quem encontra pela frente, numa força desmedida tal qual a que vimos na tragédia mineira.

E nesse lodaçal encontramos Senador da República sendo preso após planejar fuga de investigado pela Justiça, Deputados Federais e Deputados Estaduais cassados pelo escândalo das subvenções e, finalmente, um Presidente da Câmara dos Deputados que, após a comprovação de uma série de crimes por ele praticados ainda permanece no cargo e consegue a proeza de chantagear a Presidente da República. Parece que chegamos definitivamente ao refrão da música do sambista Bezerra da Silva: "Se gritar ´Pega ladrão!´, não fica um meu irmão".


O cenário, seja em Mariana, seja nas Casas Legislativas, é desolador. A solução parece estar muito distante, ou mesmo impossível. Mas se espera que a natureza, no caso mineiro, seja capaz com sua força de reestabelecer o meio ambiente. Da mesma forma que, no âmbito da política, o povo brasileiro saiba como "limpar" de nossa sociedade esses detritos que estão agora expostos. O trabalho, em ambos os casos, é extremamente árduo. Porém, temos que acreditar que de todas essas tragédias, algo de bom apareça e transforme esse mar de lama em águas límpidas, como bem merece o povo brasileiro.